domingo, 12 de maio de 2013

Você pode entrar para a lista das mulheres mais sexys usando apenas o seu cérebro! Leia e descubra como!



1-Procurar ler qualquer teórica do feminismo como Simone de Beauvoir, Julia Kristeva, Nancy Fraser etc. ou articulistas que tratam de assuntos diversos a partir delas e de outras.

2-Se lembre sempre que uma mulher se torna mulher e não nasce mulher. Portanto, ser bonita e jovem não é uma demanda natural do macho homem que a fêmea mulher devem atender, assim como uma florzinha que, depois de ser polinizada, deve ficar à vontade para morrer, pois já não é útil para o ecossistema.


3- Cogite, caso você seja uma mãe cheia de culpa ou uma filha cheia de culpar sua mãe, a possibilidade de não existir instinto materno. Da ideia que temos de maternidade ser absolutamente cultural, não havendo a possibilidade lógica de uma mãe desumana. Não dá pra se sentir sexy de verdade amarrando nossa beleza a bolas de ferro, certo?

4-Não esqueça que é sempre possível envelhecer com a auto-estima super positiva de um desses homens de meia idade que acham o máximo alisar aquela barriga pré-infarto e mostrar o relógio caro que tem, mas sem ser homem, sem ter a barriga e sem ter uma relógio ou nada caro.

5-Tente lidar com a possibilidade de que, assim como a mulher, as marcas da passagem do tempo no corpo também são vistas por uma lente cultural determinada. Você pode inventar para si mesma uma ruga que você adora e outra que te incomoda.

6-Cogite a possibilidade de que a idade biológica, como diz Bourdieu, não é correlata a idade social. Quando temos a impressão de que um velho é jovem, é porque, em geral, algo no seu jeito ou na sua vida continua socialmente ativa. Uma adolescente de baixa auto estima, sem dúvida, é muito menos bonita do que uma mulher de cinquenta ou sessenta que 'bota a banca' seja qual for a forma, mas 'bancando a sua idade'.

7- Nunca se esqueça. Todo mundo tem o direito a se sentir bonito e, além disso, ser visto como bonito. Se repararmos, quando alguém diz que outra pessoa é feia ela não diz "na minha opinião", ela simplesmente rouba a beleza para ela e diz que ninguém pode achá-la bonita, nem ela deve aparentar ter uma auto-estima positiva. Ora, ora, ora... A beleza é sua e ela ninguém tasca! Se quiser negociar com outros padrões, o faça, mas saiba que é seu direito ter o seu próprio.

8-Lembre-se sempre que toda grande diva admite que há dias em que acorda se sentindo horrível. Vejam bem, sentir-se bela é algo tão relativo e pessoal que, nem quem está dentro dos padrões escapa ao que há de inefável, contingente, sem receita prévia, no julgamento do belo.

9-Lide com a possibilidade de que, concentrar-se na sua aparência demasiadamente talvez seja uma válvula de escape para inseguranças de outros tipos como a maternidade, a profissão, o trabalho, o casamento etc.

10-Não recalque suas preocupações com sua aparência e com a idade porque alguma feminista chata te falou. Apenas reconheça que, se quando era mais nova era legal tirar sarro da velhice alheia, esses valores já não parecem servir mais para sua auto-estima como antigamente.

E viva a mulher de 90!

Colhendo muito mais do que frutas... (Valesca Popozuda - Parte III)

Chris Steele Perkins
 
As três características principais do conservadorismo das letras que apontamos no capítulo anterior são acompanhadas de elementos extremamente questionadores. Independente do modo como ele aparecem, o fato é que o casamento não é mais o lugar de prestígio social máximo da mulher;  ela exerce e se acha no direito à sensualidade;  ela expõe e se acha no direito a ter seus desejos sexuais. Na verdade, a maior parte das letras não fala em dilapidar os caras ou de problemas de ereção, mas de afirmações radicais de liberdade sexual da mulher:

Aqui o bagulho é doido 
Já é
Eu quero homem gostoso
Só pra me fazer mulher
Sou gostosa e tô facinha
E não tô de bobeira
Sou Valesca da Gaiola
Eu vou beijar a noite inteira
("Hoje eu vou beber")

Você quer meu corpinho?
Não precisa insistir
Você quer meu beijinho?
Não precisa insistir
Você quer colinho?
Não precisa insistir
Hoje eu não vou dar, eu vou distribuir [...]
(Eu sou a Bruna e faço tudo o que você quiser)
(Pode mandar o próximo)
("Hoje eu não vou dar, eu vou distribuir")

Eu vo te dar um papo
Vê se para de gracinha
Eu do pra quem quiser
Que a porra da buceta é minha
É minha é minha
A porra da buceta é minha
É minha é minha
A porra da...(2x)
("A porra da buceta é minha")

Bom...  Resolvi não poupar citações porque acredito que muitos leitores, como eu, não conhecem as letras do grupo. Essa liberdade, além de ser restrita às mulheres dentro de certo padrão de beleza, é sinônimo, contudo, de prosmicuidade. Assim, vejamos que a versão do proibidão "Eu sou piranha" para grande circulação é "Eu sou solteira". Inclusive, talvez esteja nesse hiato a impressão de que há muita coisa intecionalmente feminista na música de Valesca. O que temos é menos uma ideia de libertação de uma condição x ou y da mulher do que uma ideia de resposta direta a linguagem da condenação do exercício da sexualidade da mulher (não esquecendo que é seu direito vender seu corpo, direta ou indiretamente).A impressão que dá é que, ainda que bem menos, no funk também tem a batalha (desafio entre improvisadores) que existe no repente e no rap. Este eu-lírico parece ter sido, nesse sentido, efetivamente criadopor oposição ao eu-lírico masculino. 

É nessa espécie de batalha maior com o funk feito pelos homens que surge essa resposta na forma de um modelo de feminilidade que cobra um modelo de masculinidade.  Essa dinâmica parece fundamental para entender as contradições relativas às representações de gênero, pois ela não são movidas por nenhum tipo de militância, até agora, é claro, mas por uma necessidade de resposta à altura, no sentido de provocar o choque, em relação ao comportamental sexual, que o ouvinte do funk deseja. Essa reposta não podia ser a de uma mulher abstrata e geral, porque ela é dirigida a uma voz masculina que ordena e cobra o desempenho da mulher tratada como prostituta. Ela é então particular, de um ambiente de valores extremamente liberais quanto ao exercício da sexualidade, mas de rigidez quanto ao papel do homem e da mulher. Em cima do palco, no tempo do improviso, nas cochias da criação, explode essa liberdade que recusa a monogamia, a subserviência sexual da mulher ao homem e, a partir disso, ressignifica os antigos termos perjorativos: vadia, cachorra, piranha etc. Contudo, não se cria outro vocabulário.

Nesse sentido, há uma lógica de revanche contra a esposa, a oficial, a mãe de família etc. Essa revanche tem uma faceta libertária porque essa mulher se livra das tarefas domésticas, sem reconhecimento social, e sai do papel da solteira coitadinha, para assumidamente aproveitar as vantages dessa condição. No entanto, como podemos ver na letra abaixo, se por um lado temos a total desidentificação da mulher com as tarefas de casa, por outro temos a completa inferiorização daquelas que o fazem. Na verdade, se trata menos de uma libertação do que de um louvor ao roubo, de uma desapropriação indevida do homem da próxima. Mera transferência de propriedade. 

Fiél é o caralho, você é empregadinha!
Lava, passa e cozinha mas a pica dele é minha!!!
Lava, passa e cozinha mas a pica dele é minha!!!
Falou que ia me pegar, você vai tomá no cú!
É o bonde das amantes...
caçadoras de pirú.
É o bonde das amantes...
caçadoras de pirú [...]
Vc fica nervosa, fica toda irritadinha.
Mete o dedo no cú, pois a pica dele é minha!
Mete o dedo no cú, pois a pica dele é minha! 
("Fiel é o caralho")

 De todo omodo, por essa nossa pequena incursão pelas letras do grupo popozudo, podemos dizer que o feminismo dele é casual mas, em todo caso, extremamente individividualista pois defende apenas um tipo de de feminilidade. Ocorre que, como estamos lidando com representação e estamos refletindo algo da dimensão do simbólico, acontecem identificações que o próprio artista não esperava. Dado que o sucesso do grupo cresce também entre os gays, é de se pensar se, querendo falar para as mulheres taxadas de vadias ele acabou criando uma linguagem que figura a ruptura com a repressão sexual e do corpo de modo geral.  A letra abaixo é uma revanche a um homem espancador. Ela afirma a moral da fidelidade, pois o fato de ser puta deve agredí-lo em sua machesa, mas também o nega por que, sendo o verso " Valeu muito obrigado mas agora virei puta!!!",  destacado e repetido como clímax, claramente afirma de modo positivo a ruptura com a condição anterior de mulher espancada:

Só me dava porrada!!!
E partia pra farra!!!
Eu ficava sozinha,esperando você
Eu gritava e chorava que nem uma maluca...
Valeu muito obrigado mas agora virei puta!!! [...]
 se-se-se-se-se-se-se-se uma tapinha não doi..
eu-eu-eu-eu-eu-eu-eu-eu falo pra você...
segura esse chifre quero ver tu se fuder! [...]
Eu lavava passava!!!
Eu lavava passava...
tu não dava valor!!
tu não dava valor..
agora que eu sou puta você quer falar de amor!!!
("Larguei meu marido")

A puta parece ter ser transformado em arauto da reficação do homem, assim como se operava uma redução da mulher. Ela não era tratada como puta que devia servir? Agora ela se apropria desse lugar para dizer que o homem deve cumprir seu papel de provedor e de fonte de prazer sexual. Não verdade, os homens são menos transformados em objetos do que em instrumentos para algo, assim como a mulher era mero instrumento de prazer. 

Apesar disso, contudo, assim como quando o rap nasceu tinha quem o acusasse de ser racista com brancos, colocando em pé de igaualdade um discurso de auto-afrimação do fim do seculo XX com mais de 300 anos de experiência histórica do negro como mercadoria; agora não poderíamos por em pé de igualdade o machismo às avessas de Valesca se comparado ao machismo oficial de uma canal como a Globo, por exemplo. Seria não só injusto, como perderíamos a perspectiva histórica que faz com sua música tenha efetivamente poder libertário, ainda que específico, muito grande. Afinal, uma mulher que sabe que a puzzy a dela, tem muito mais chances de saber que não merece apanhar por cíume de marido ou ex-marido, certo? Isso é um mérito da música de Valesca que nenhum analista pode tirar, se a partir daqui ela quiser ter outros e se voltar para o feminismo sem ser mera jogada de marketing seria realmente muito bom!

Pois é, sempre me chamou a atenção a ausência de metáforas no funk. Porque o emprego dos vocábulos tem que ser, em geral, literais e concretos? Nao sei. O fato é que, no meio de um gênero musical que parecia chapado e superificial, quando visto do ponto de vista dos valores que afirmam, particularmente em suas letras, são muito mais ambíguos do que aparentam e merecem ser levados à sério.

 The unity é o poder!

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Plantando sementes... (Valesca Popozuda - parte II)

David LaChapelle

Vou arriscar partir de um senso comum. As letras que cito ao longo deste artigo são surpeendentes, em especial, para um não frequentador de baile funk. A tal da vagabunda, da vadia, cachorra, puta, a vilã da novela, promíscua, interessada só em dinheiro etc., enfim, essa tal que existia só como xingamento e humilhação social, agora pega o microfone, afirma um estilo de vida e de beleza e cria um eu-lírico. Trair, traio mesmo; depenar os homens, eu depeno mesmo; ligar pra tamanho o pênis, eu ligo mesmo etc. Uma música que representa bem essa incorporação daquilo que era visto como negativo como positivo é "My pussy é o poder":

Na cama faço de tudo
Sou eu que te dou prazer
Sou profissional do sexo
E vou te mostrar por que
My-my pussy é o poder (2x)
Mulher burra fica pobre
Mass eu vou te dizer
Se for inteligente pode até enriquecer
My-my pussy é o poder (2x)
Por ela o homem chora
Por ela o homem gasta
Por ela o homem mata
Por ela o homem enlouquece
Dá carro, apartamento, jóias, roupas e mansão
Coloca silicone
E faz lipoaspiração
Implante no cabelo com rostinho de atriz
Aumenta a sua bunda pra você ficar feliz

 É muito interessante como aqui, "profissional do sexo" serve tanto para a esposa, para amante, para a garota de programa etc. Afinal, os desejos de consumo parecem ser, de fato, os mesmos das "mulheres de familia", ainda que jamais tratados tão assumidamente. Isso talvez faça parte do sucesso do funk com a Higt socity paulista e carioca, bem como entre parte da classe média, ainda que no registro do exótico (não tem DJ de casamento que não toque algumas músicas de funk). Nesse sentido, é interessante o que Valesca chama de inteligência: 

Que Dilma que nada! Me leva pra Casa Civil
Vou por o som na caixa e balançar o quadril
O funk não é problema, para alguns jovens é a solução
Quem sabe algum dia viro ministra da Educação
("Funk do Lula")

Ora, ora, ora... é isso mesmo que as mães de família tanto temiam! Imaginem um mundo onde ser inteligente é ter dinheiro a qualquer custo e que há arbitrariedade quando o assuto é mérito na escolha de pessoas para qualquer cargo de confiança, como o de ministro!!! Que absurdo um gênero musical que afirma esses valores! Caros leitores que tentam, com a leitura (essa modalidade de diálogo) se manter à esquerda, parem e reflitam um só instante. Seria justo condenar o funk pela afirmação de valores tão banais no nosso cotidiano? Porque a sociedade usa dois pesos e duas medidas quando o assunto do funk? 

Em minha falsa-humilde opinião, acho que é fundamental para o feminismo a formulação de Bourdieu de que existem tantos modelos de feminilidade quanto frações de classe. Essa galera do funk não é toda a classe C, D e E. Aliás, ela também é identificada como uma fase de curtição na vida das pessoas que costuma não durar para sempre. Fazer uma discussão sobre o conteúdo das letras do grupo, preocupado com problemas de gênero, jogando isso pra debaixo do tapete é abdicar de qualquer preocupação em reconhecer a legitimidade da existência deste outro que é o funk para quem não o frequenta musicalmente. (Este é mais ou menos o meu caso porque moro na periferia de São Paulo e é impossível passar um dia sem passar um carro ou alguém ouvindo funk naquela caixinha de mp3.) 

Uma pergunta como: "O que falta na Valesca para ela ser uma feminista de verdade?" anula por completo este outro porque cobra deles algo que não existe em termos absolutos, qual seja, o 'verdadeiro feminismo'. Esse é um pouco o tom do debate até gora e a ele queremos contrapor outra questão, voltada para a mesma preocupação: "De que maneira Valesca transforma e mantém representações de gênero opressivas?" Aqui, nossa hipótese é a de que as letras do grupo  são recheadas por elementos conservadores e libertadores ao extremo. Numa espécie de compensação simbólica deste lugar historicamente delegado a Vadia, essa voz, para afirmar seu poder, vem acompanha em cada letra de um extremo conservadorismo. Assim, é notável que, na entrevista de Valesca a Marília Gabriela, sua preocupação em se mostrar trabalhadora, mãezona, pouco namoradeira e incrivelmente crítica de palavrões. Devo confessar que, apesar de meu respeito pela a artista, foi muito engraçado ouvir ela se defender falando algo do tipo: "Eu não falo palavrão no palco porque meu público já sabe a letra de cor, então ele canta."; ou fazendo média com 'o pessoal da igreja' dizendo: "Pessoalmente eu sou contra o aborto".

 Em outra declaração bem emblemática, ao reponder que seu filho não se sentia constrangido pela figura pública dela, Valesca, cheia de orgulho, contou que um dia o filho se defendeu das agressões de outro garoto dizendo que a mãe dele era uma gorda horrorosa. Ora, ra, ra... Posso até entender o lado de Valesca que, como disse, acha muito mais difícil ser respeitada pelas mulheres do que pelos homens. Contudo, não posso e nem quero entender qua a liberdade sexual que prega seja restrita a mulheres dentro de determinado padrão de beleza. Acho que meninas sem bunda poderiam ser daçarinas do grupo dela e isso seria muito mais chocante do que o concurso que a gaiola das popozudas abriu para integrar o primeiro dançarino transexual na história do funk. Ao que parece, enquanto as pautas relativas aos gays mais crescem e ganham apoio, o feminismo parece estar, como sempre, em baixa. 

Pois bem, nas letras encontramos ainda um elogio ao pragmatismo, no qual a mulher é convocada para um mundo nada romântico, onde inteligência é ela usar o corpo para conseguir o homem/dinheiro que quiser. Nessa '/' de nosso termo "homem/dinheiro" está outro ponto fundamental do seu conservadorismo, qual seja, o de que as mulheres não são capazes de ganhar dinheiro por si só ou de que independência financeira não é importante por si só.  Ora, ora, ora.... Se não fosse, porque não está a própria Valesca levanda a vidas às custas de um homem rico, mas fazendo schow atrás de schow? Seria generoso de sua parte se desejasse a suas ouvintes a liberdade que buscou e batalhou para ter fora da personagem de funkeira que a imprensa exige dela. Aliás, muito legal ela se colocar em relação ao preconceito contra gays porque isso já é  muito mais do que esperam dela!  Neste caso não faz diferença se é coisa de empresário, é uma funkeira se metendo em assuntos públicos e, na minha opinão, ao contrário de no caso do aborto, acertada. 

Por fim, acho que o terceiro ponto crucial de conservadorismo é em relação a representação do homem como provedor e potente sexualmente. No caso do primeiro, é a outra faceta da ideia: "é legal viver às custas de um homem". O homem é reduzido ao seu poder de consumo e integra um modelo de masculinade do qual faz parte o pênis supostamente grande, com ereções à disposição e sem direito a sair do papel de macho e sentir prazer no ânus:

Sai, sai pica mole
Sai, sai seu pica mole
Além do peru pequeno
E aí? Ele não sobe

 ("Califórnia picas")
Me chama de cachorra,de mamada e de lanchinho
Na hora do vamos ver
Vira o cu pede dedinho

("Dedinho")

Mas deixemos o conservadorismo de lado pra pôr outros pesos na balança ne terceira e ultima parte desse artigo.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Limpando o terreno... (Valesca popozuda - parte I)

Após investigar outros blogs que também falam de questões de gênero, vi que um assunto em voga são as recentes declarações da líder do grupo de funk, "Gaiola das popozudas", Valesca. A maioria dos artigos que querem pensar em um registro menos preconceituoso a fala e as letras de Valesca, começam admitindo que não entendem de música, o que parece ser um pedido de licença para falar do assunto. Como se não pudéssemos falar de funk seriamente sem antes deixar claro que a música é ruim. Exceção feita para o Homem Maravilha, que deixou bem claro que quando ouve em festa rebola até o chão (rs, rs, rs).

Aqui não vamos pedir licença, nem nos constranger a precipitar juízos quando eles ainda estão suspensos. O que penso eu do funk? Não sei. Teria que investigar o gênero e ouvir outros grupos que não só o da Valesca. Se a ideia é não topar um mero 'politicamente correto', então vamos admitir que o gênero musical tem autonomia, até para que possamos divergir com eficácia persuasiva do conteúdo que queremos discutir. A repetição de palavrões e os milhares de nomes dados aos nossos órgãos reprodutivos, por exemplo, não são motivados por uma gente bárbara que colocam suas crianças para dançar fazendo posições sexuais, estimulando a pedofilia. Aliás, é bom lembrar que uma criança que dança assim, caso um pedófilo a toque, nem ela nem a sua mãe devem ser os culpados disso, assim como no caso do estupro não importa a roupa que a mulher usava. Também recomendo o filme "Festa de família", sobre uma família de elite dinamarquesa cujo o pai estuprava os filhos desde de pequenos ao som, eu imagino, de Mozart. Deste modo, essa presença características da representão do ato e dos órgãos sexuias parecem fazer parte de um gênero musical cuja história praticamente se desconhece e que se deu em condições autônomas de produção, circulação e recepção. Como diz Valesca em entrevista, o primeiro lugar em que se toca um pancadão é no baile funk e, se fizer sucesso ali, vai para a rádio ou para a televisão. Inclusive, parece que boa parte dos proibidões já são feito de modo a tornarem a "versão light" que vai para fora da 'comunidade', como a carioca chama o seu filçao de mercado.

Bom, dado que pouco se sabe, em geral, desse gênero específico de música que é o funk. Limitamos então nosso comentário ao conteúdo e aos constrangimentos que as declarações e letras do grupo de Valesca têm colocado para um tipo de feminismo que, pelo que vi, acredito estar bem representado no artigo de Lola Aronovich. Apesar de finalizá-lo dizendo que apóia o modo como Vaslesca afirma a liberdade sexual da mulher, ao longo deste a autora condena suas letras:

E isso de se interessar por homem casado só reforça o clichê de que mulheres não podem ser amigas porque estarão sempre competindo entre si pela aprovação masculina.[...]
Tampouco acho empoderador ter que colocar silicone, posar nua pra revista, ou fazer qualquer outra coisa que a sociedade já espera de uma mulher. Não estou dizendo que acho necessariamente errado, apenas que não é revolucionário.
Não gosto do termo dar, porque ele sugere passividade. Que tal transar, que é um termo neutro e unissex? O homem come, a mulher dá. Argh. Em inglês não existe isso não. Também odeio termos como cachorra e piranha, que aparentemente são encorajados pelo funk (entre outros estilos musicais). 
(de Lola Aronovich, em http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2012/06/as-declaracoes-feministas-de-valesca.html)
 
Ora, ora, ora.... ainda é muito forte o que vou chamar aqui de certo feminismo se apegam ao que considero clichês a tanto tempo que realmente é de se perguntar como aguentam se interessar por uma pauta que é sempre a mesma!!! Por onde começar? Vamos ver... Entremos pela brecha que acreditamos existir na frase destacada acima. Desconfortável com o seu papel de "juiz de funk" (não é errado) e preocupada em não ser confundida como uma simpatizante (não é revolucionário), Lola chega a essa interessante e ponderada formulação sobre o problema. Contudo, se não é 'errado', porque condenar o adultério, o silicone ou determinados palavrões que lhes são particularmente estranhos? Além disso, qual o parâmetro do que é revolucionário? Não me parece nada revolucionário estabelecer parâmetros vazios e inatingíveis para artistas sem nem ao menos conhecer o gênero musical com que trabalham. É preciso deixar claro se se quer que as pessoas parem de ouvir funk, ouçam só um tipo de funk ou, como é o caso do que defendemos aqui por ser democrático, que elas ouçam funk com a mente mais aberta, tanto para as críticas, como para os elogios.

Bom, com essa introdução acho que nos livramos de uma corrente de opiniões marcada pelo preconceito com o gênero musical funk, ao elitismo que marca e dispensabilidade em conhecê-lo para julgar seus casos e, principalmente, ao moralismo que afirma um modelo de feminilidade universitário. Silicone, palavrão, adultério etc. todos esses são gestos da vida privada que, por mais que tenham sentido coletivo, como no caso do padrão de beleza, relativo ao silicone, também têm um sentido pessoal para cada um, que pode ser repressivo ou libertador, sem podermos julgar a priori e deduzir daí todos os posicionamentos políticos e opiniões de quem faz essa opção. Querendo questionar o padrão de beleza, certo feminismo opera outra redução da mulher, no caso, de suas posições políticas às suas opções em relação ao seu corpo. Nesse sentido, ele se ressente de uma cultura intelectual mais geral de caráter personalista, onde o mais importante é taxar as pessoas disso ou daquilo (daí a relevância desse problema em se definir ou não feminista)

Valesca dá um nó nisso tudo, ela é mãe de três filhos, foi frentista, fala que rejeita pau mole, que não apanha de homem, que é legal estar solteira, que é legar depenar financeiramente o homem, que é contra o aborto. Ora, como podemos taxar de alguma coisa esse amálgama de contradições? Talvez fosse legal justamente pensar essas contradições como tais e separar 'o joio do trigo', levando à serio a mensagem da funkeira que concordamos e outras que discordamos veementemente. Não porque acreditamos estimular as criancinhas para isso ou para aquilo, mas porque afirmam valores opressivos presentes nas canções no discurso de todas as classes sociais, inclusive em objetos classificados como de alta cultura.

Vamos a parte II desse artigo.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Um mundo sem talheres?

Gildásio Jardim
"Um mundo sem mulheres", quadro do programa Fantástico, é uma afronta direta ao que considero um feminismo já senso comum. Como disse o apresentador do quadro, no último programa, se nas semanas anteriores a falta das esposas se fez sentir mais nas tarefas domésticas, neste episódio a falta começa a ser emocional e as crianças passam a brigar entre si e com os pais. Um burro de carga conciliador, fonte de todos os afetos familiares e harmonizador, parece ser este o modo de compreensão de uma mulher que protagoniza as atividades da casa e o cuidado com os filhos.

Pequipariu!!! Jura?! Isso é possível? Quantos pontos de exclamação serão necessários para fazer combater uma cultura em que, até hoje, tem dificuldades para achar importante iniciar uma investigação de estupro, como demonstrou o caso recente da turista americana. Mas se acalme leitor, sei que agora fiz uma ponte abrupta e peço que não abandone esse texto até acompanhar o meu raciocínio.

Não há causas diretas entre programas de televisão e comportamentos dos seus telespectadores. O que há são reforços de valores e modos de pensar que também estão por trás de ações ou não-ações bárbaras. Vejam bem, esse burro de carga é fonte de afeto e união apenas internamente à sua família. Vista de fora, num mundo onde cada vez mais o que vale é a aparência e o consumo, ela não tem prestígio social nenhum. Essa é a sina das D. Marias.

O quadro "Um mundo sem mulheres" coloca no registro do exótico, homens que cuidam da casa e dos filhos, instituindo como normalidade essa mulher burro de carga. Ora, mas que normalidade é essa em que os homens são coitadinhos por fazerem aquilo mesmo pelo que são IGUALMENTE responsáveis, casa e filhos. Um homem que cuida dos filhos é um herói, mas uma mulher que o faz segue a sua 'natureza'. Por consequência,  um homem que não assume suas responsabilidades segue seus instintos e uma mulher que não o faz é uma espécie de monstro, anomalia que deve ser enxovalhada.

Caberia então se perguntar se, num mundo onde é normal a mulher estar reduzida, ainda, à maternidade e ao espaço privado da casa,  porque quando ela sai da casa e vai à rua a integridade do seu corpo deva ser prioridade? Ao andar na rua, sozinha, uma mulher é sempre uma vadia em potencial. Afinal, se no mundo sem mulheres desse programa, as mulheres não existem no espaço público, entao elas tendem ser o que qualquer  maníaco imbecil quiser. Nesse sentido, realmente, ao que parece, a integridade do corpo da mulher só merece respeito quando ela tem grana, fama ou algo que equivalha, como no caso de turistas. Ela não é fundamental porque o assunto "a mulher no espaço público" não só não o é importante, como quadros como esse dizem não existir.

OBS: Textos bem legais sobre o assunto, ainda que não concorde totalmente, são o de Marcelo Hailer :http://revistaforum.com.br/blog/2013/04/o-mundo-sem-mulheres-e-o-macho-alfa-editado/; Daniel Fonsêca http://www.direitoacomunicacao.org.br/content.php?option=com_content&task=view&id=9672; Iara Sindrominha http://sindromemm.blogspot.com.br/2013/04/um-mundo-sem-fantastico-sao-mulheres-ou.html; Danie Karam http://pipocapimentaepoesia.com.br/2013/04/01/mundo-sem-mulheres-sem-sentido-e-sem-nocao/;