domingo, 12 de maio de 2013

Colhendo muito mais do que frutas... (Valesca Popozuda - Parte III)

Chris Steele Perkins
 
As três características principais do conservadorismo das letras que apontamos no capítulo anterior são acompanhadas de elementos extremamente questionadores. Independente do modo como ele aparecem, o fato é que o casamento não é mais o lugar de prestígio social máximo da mulher;  ela exerce e se acha no direito à sensualidade;  ela expõe e se acha no direito a ter seus desejos sexuais. Na verdade, a maior parte das letras não fala em dilapidar os caras ou de problemas de ereção, mas de afirmações radicais de liberdade sexual da mulher:

Aqui o bagulho é doido 
Já é
Eu quero homem gostoso
Só pra me fazer mulher
Sou gostosa e tô facinha
E não tô de bobeira
Sou Valesca da Gaiola
Eu vou beijar a noite inteira
("Hoje eu vou beber")

Você quer meu corpinho?
Não precisa insistir
Você quer meu beijinho?
Não precisa insistir
Você quer colinho?
Não precisa insistir
Hoje eu não vou dar, eu vou distribuir [...]
(Eu sou a Bruna e faço tudo o que você quiser)
(Pode mandar o próximo)
("Hoje eu não vou dar, eu vou distribuir")

Eu vo te dar um papo
Vê se para de gracinha
Eu do pra quem quiser
Que a porra da buceta é minha
É minha é minha
A porra da buceta é minha
É minha é minha
A porra da...(2x)
("A porra da buceta é minha")

Bom...  Resolvi não poupar citações porque acredito que muitos leitores, como eu, não conhecem as letras do grupo. Essa liberdade, além de ser restrita às mulheres dentro de certo padrão de beleza, é sinônimo, contudo, de prosmicuidade. Assim, vejamos que a versão do proibidão "Eu sou piranha" para grande circulação é "Eu sou solteira". Inclusive, talvez esteja nesse hiato a impressão de que há muita coisa intecionalmente feminista na música de Valesca. O que temos é menos uma ideia de libertação de uma condição x ou y da mulher do que uma ideia de resposta direta a linguagem da condenação do exercício da sexualidade da mulher (não esquecendo que é seu direito vender seu corpo, direta ou indiretamente).A impressão que dá é que, ainda que bem menos, no funk também tem a batalha (desafio entre improvisadores) que existe no repente e no rap. Este eu-lírico parece ter sido, nesse sentido, efetivamente criadopor oposição ao eu-lírico masculino. 

É nessa espécie de batalha maior com o funk feito pelos homens que surge essa resposta na forma de um modelo de feminilidade que cobra um modelo de masculinidade.  Essa dinâmica parece fundamental para entender as contradições relativas às representações de gênero, pois ela não são movidas por nenhum tipo de militância, até agora, é claro, mas por uma necessidade de resposta à altura, no sentido de provocar o choque, em relação ao comportamental sexual, que o ouvinte do funk deseja. Essa reposta não podia ser a de uma mulher abstrata e geral, porque ela é dirigida a uma voz masculina que ordena e cobra o desempenho da mulher tratada como prostituta. Ela é então particular, de um ambiente de valores extremamente liberais quanto ao exercício da sexualidade, mas de rigidez quanto ao papel do homem e da mulher. Em cima do palco, no tempo do improviso, nas cochias da criação, explode essa liberdade que recusa a monogamia, a subserviência sexual da mulher ao homem e, a partir disso, ressignifica os antigos termos perjorativos: vadia, cachorra, piranha etc. Contudo, não se cria outro vocabulário.

Nesse sentido, há uma lógica de revanche contra a esposa, a oficial, a mãe de família etc. Essa revanche tem uma faceta libertária porque essa mulher se livra das tarefas domésticas, sem reconhecimento social, e sai do papel da solteira coitadinha, para assumidamente aproveitar as vantages dessa condição. No entanto, como podemos ver na letra abaixo, se por um lado temos a total desidentificação da mulher com as tarefas de casa, por outro temos a completa inferiorização daquelas que o fazem. Na verdade, se trata menos de uma libertação do que de um louvor ao roubo, de uma desapropriação indevida do homem da próxima. Mera transferência de propriedade. 

Fiél é o caralho, você é empregadinha!
Lava, passa e cozinha mas a pica dele é minha!!!
Lava, passa e cozinha mas a pica dele é minha!!!
Falou que ia me pegar, você vai tomá no cú!
É o bonde das amantes...
caçadoras de pirú.
É o bonde das amantes...
caçadoras de pirú [...]
Vc fica nervosa, fica toda irritadinha.
Mete o dedo no cú, pois a pica dele é minha!
Mete o dedo no cú, pois a pica dele é minha! 
("Fiel é o caralho")

 De todo omodo, por essa nossa pequena incursão pelas letras do grupo popozudo, podemos dizer que o feminismo dele é casual mas, em todo caso, extremamente individividualista pois defende apenas um tipo de de feminilidade. Ocorre que, como estamos lidando com representação e estamos refletindo algo da dimensão do simbólico, acontecem identificações que o próprio artista não esperava. Dado que o sucesso do grupo cresce também entre os gays, é de se pensar se, querendo falar para as mulheres taxadas de vadias ele acabou criando uma linguagem que figura a ruptura com a repressão sexual e do corpo de modo geral.  A letra abaixo é uma revanche a um homem espancador. Ela afirma a moral da fidelidade, pois o fato de ser puta deve agredí-lo em sua machesa, mas também o nega por que, sendo o verso " Valeu muito obrigado mas agora virei puta!!!",  destacado e repetido como clímax, claramente afirma de modo positivo a ruptura com a condição anterior de mulher espancada:

Só me dava porrada!!!
E partia pra farra!!!
Eu ficava sozinha,esperando você
Eu gritava e chorava que nem uma maluca...
Valeu muito obrigado mas agora virei puta!!! [...]
 se-se-se-se-se-se-se-se uma tapinha não doi..
eu-eu-eu-eu-eu-eu-eu-eu falo pra você...
segura esse chifre quero ver tu se fuder! [...]
Eu lavava passava!!!
Eu lavava passava...
tu não dava valor!!
tu não dava valor..
agora que eu sou puta você quer falar de amor!!!
("Larguei meu marido")

A puta parece ter ser transformado em arauto da reficação do homem, assim como se operava uma redução da mulher. Ela não era tratada como puta que devia servir? Agora ela se apropria desse lugar para dizer que o homem deve cumprir seu papel de provedor e de fonte de prazer sexual. Não verdade, os homens são menos transformados em objetos do que em instrumentos para algo, assim como a mulher era mero instrumento de prazer. 

Apesar disso, contudo, assim como quando o rap nasceu tinha quem o acusasse de ser racista com brancos, colocando em pé de igaualdade um discurso de auto-afrimação do fim do seculo XX com mais de 300 anos de experiência histórica do negro como mercadoria; agora não poderíamos por em pé de igualdade o machismo às avessas de Valesca se comparado ao machismo oficial de uma canal como a Globo, por exemplo. Seria não só injusto, como perderíamos a perspectiva histórica que faz com sua música tenha efetivamente poder libertário, ainda que específico, muito grande. Afinal, uma mulher que sabe que a puzzy a dela, tem muito mais chances de saber que não merece apanhar por cíume de marido ou ex-marido, certo? Isso é um mérito da música de Valesca que nenhum analista pode tirar, se a partir daqui ela quiser ter outros e se voltar para o feminismo sem ser mera jogada de marketing seria realmente muito bom!

Pois é, sempre me chamou a atenção a ausência de metáforas no funk. Porque o emprego dos vocábulos tem que ser, em geral, literais e concretos? Nao sei. O fato é que, no meio de um gênero musical que parecia chapado e superificial, quando visto do ponto de vista dos valores que afirmam, particularmente em suas letras, são muito mais ambíguos do que aparentam e merecem ser levados à sério.

 The unity é o poder!

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