quinta-feira, 2 de maio de 2013

Plantando sementes... (Valesca Popozuda - parte II)

David LaChapelle

Vou arriscar partir de um senso comum. As letras que cito ao longo deste artigo são surpeendentes, em especial, para um não frequentador de baile funk. A tal da vagabunda, da vadia, cachorra, puta, a vilã da novela, promíscua, interessada só em dinheiro etc., enfim, essa tal que existia só como xingamento e humilhação social, agora pega o microfone, afirma um estilo de vida e de beleza e cria um eu-lírico. Trair, traio mesmo; depenar os homens, eu depeno mesmo; ligar pra tamanho o pênis, eu ligo mesmo etc. Uma música que representa bem essa incorporação daquilo que era visto como negativo como positivo é "My pussy é o poder":

Na cama faço de tudo
Sou eu que te dou prazer
Sou profissional do sexo
E vou te mostrar por que
My-my pussy é o poder (2x)
Mulher burra fica pobre
Mass eu vou te dizer
Se for inteligente pode até enriquecer
My-my pussy é o poder (2x)
Por ela o homem chora
Por ela o homem gasta
Por ela o homem mata
Por ela o homem enlouquece
Dá carro, apartamento, jóias, roupas e mansão
Coloca silicone
E faz lipoaspiração
Implante no cabelo com rostinho de atriz
Aumenta a sua bunda pra você ficar feliz

 É muito interessante como aqui, "profissional do sexo" serve tanto para a esposa, para amante, para a garota de programa etc. Afinal, os desejos de consumo parecem ser, de fato, os mesmos das "mulheres de familia", ainda que jamais tratados tão assumidamente. Isso talvez faça parte do sucesso do funk com a Higt socity paulista e carioca, bem como entre parte da classe média, ainda que no registro do exótico (não tem DJ de casamento que não toque algumas músicas de funk). Nesse sentido, é interessante o que Valesca chama de inteligência: 

Que Dilma que nada! Me leva pra Casa Civil
Vou por o som na caixa e balançar o quadril
O funk não é problema, para alguns jovens é a solução
Quem sabe algum dia viro ministra da Educação
("Funk do Lula")

Ora, ora, ora... é isso mesmo que as mães de família tanto temiam! Imaginem um mundo onde ser inteligente é ter dinheiro a qualquer custo e que há arbitrariedade quando o assuto é mérito na escolha de pessoas para qualquer cargo de confiança, como o de ministro!!! Que absurdo um gênero musical que afirma esses valores! Caros leitores que tentam, com a leitura (essa modalidade de diálogo) se manter à esquerda, parem e reflitam um só instante. Seria justo condenar o funk pela afirmação de valores tão banais no nosso cotidiano? Porque a sociedade usa dois pesos e duas medidas quando o assunto do funk? 

Em minha falsa-humilde opinião, acho que é fundamental para o feminismo a formulação de Bourdieu de que existem tantos modelos de feminilidade quanto frações de classe. Essa galera do funk não é toda a classe C, D e E. Aliás, ela também é identificada como uma fase de curtição na vida das pessoas que costuma não durar para sempre. Fazer uma discussão sobre o conteúdo das letras do grupo, preocupado com problemas de gênero, jogando isso pra debaixo do tapete é abdicar de qualquer preocupação em reconhecer a legitimidade da existência deste outro que é o funk para quem não o frequenta musicalmente. (Este é mais ou menos o meu caso porque moro na periferia de São Paulo e é impossível passar um dia sem passar um carro ou alguém ouvindo funk naquela caixinha de mp3.) 

Uma pergunta como: "O que falta na Valesca para ela ser uma feminista de verdade?" anula por completo este outro porque cobra deles algo que não existe em termos absolutos, qual seja, o 'verdadeiro feminismo'. Esse é um pouco o tom do debate até gora e a ele queremos contrapor outra questão, voltada para a mesma preocupação: "De que maneira Valesca transforma e mantém representações de gênero opressivas?" Aqui, nossa hipótese é a de que as letras do grupo  são recheadas por elementos conservadores e libertadores ao extremo. Numa espécie de compensação simbólica deste lugar historicamente delegado a Vadia, essa voz, para afirmar seu poder, vem acompanha em cada letra de um extremo conservadorismo. Assim, é notável que, na entrevista de Valesca a Marília Gabriela, sua preocupação em se mostrar trabalhadora, mãezona, pouco namoradeira e incrivelmente crítica de palavrões. Devo confessar que, apesar de meu respeito pela a artista, foi muito engraçado ouvir ela se defender falando algo do tipo: "Eu não falo palavrão no palco porque meu público já sabe a letra de cor, então ele canta."; ou fazendo média com 'o pessoal da igreja' dizendo: "Pessoalmente eu sou contra o aborto".

 Em outra declaração bem emblemática, ao reponder que seu filho não se sentia constrangido pela figura pública dela, Valesca, cheia de orgulho, contou que um dia o filho se defendeu das agressões de outro garoto dizendo que a mãe dele era uma gorda horrorosa. Ora, ra, ra... Posso até entender o lado de Valesca que, como disse, acha muito mais difícil ser respeitada pelas mulheres do que pelos homens. Contudo, não posso e nem quero entender qua a liberdade sexual que prega seja restrita a mulheres dentro de determinado padrão de beleza. Acho que meninas sem bunda poderiam ser daçarinas do grupo dela e isso seria muito mais chocante do que o concurso que a gaiola das popozudas abriu para integrar o primeiro dançarino transexual na história do funk. Ao que parece, enquanto as pautas relativas aos gays mais crescem e ganham apoio, o feminismo parece estar, como sempre, em baixa. 

Pois bem, nas letras encontramos ainda um elogio ao pragmatismo, no qual a mulher é convocada para um mundo nada romântico, onde inteligência é ela usar o corpo para conseguir o homem/dinheiro que quiser. Nessa '/' de nosso termo "homem/dinheiro" está outro ponto fundamental do seu conservadorismo, qual seja, o de que as mulheres não são capazes de ganhar dinheiro por si só ou de que independência financeira não é importante por si só.  Ora, ora, ora.... Se não fosse, porque não está a própria Valesca levanda a vidas às custas de um homem rico, mas fazendo schow atrás de schow? Seria generoso de sua parte se desejasse a suas ouvintes a liberdade que buscou e batalhou para ter fora da personagem de funkeira que a imprensa exige dela. Aliás, muito legal ela se colocar em relação ao preconceito contra gays porque isso já é  muito mais do que esperam dela!  Neste caso não faz diferença se é coisa de empresário, é uma funkeira se metendo em assuntos públicos e, na minha opinão, ao contrário de no caso do aborto, acertada. 

Por fim, acho que o terceiro ponto crucial de conservadorismo é em relação a representação do homem como provedor e potente sexualmente. No caso do primeiro, é a outra faceta da ideia: "é legal viver às custas de um homem". O homem é reduzido ao seu poder de consumo e integra um modelo de masculinade do qual faz parte o pênis supostamente grande, com ereções à disposição e sem direito a sair do papel de macho e sentir prazer no ânus:

Sai, sai pica mole
Sai, sai seu pica mole
Além do peru pequeno
E aí? Ele não sobe

 ("Califórnia picas")
Me chama de cachorra,de mamada e de lanchinho
Na hora do vamos ver
Vira o cu pede dedinho

("Dedinho")

Mas deixemos o conservadorismo de lado pra pôr outros pesos na balança ne terceira e ultima parte desse artigo.

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