segunda-feira, 29 de abril de 2013

Um mundo sem talheres?

Gildásio Jardim
"Um mundo sem mulheres", quadro do programa Fantástico, é uma afronta direta ao que considero um feminismo já senso comum. Como disse o apresentador do quadro, no último programa, se nas semanas anteriores a falta das esposas se fez sentir mais nas tarefas domésticas, neste episódio a falta começa a ser emocional e as crianças passam a brigar entre si e com os pais. Um burro de carga conciliador, fonte de todos os afetos familiares e harmonizador, parece ser este o modo de compreensão de uma mulher que protagoniza as atividades da casa e o cuidado com os filhos.

Pequipariu!!! Jura?! Isso é possível? Quantos pontos de exclamação serão necessários para fazer combater uma cultura em que, até hoje, tem dificuldades para achar importante iniciar uma investigação de estupro, como demonstrou o caso recente da turista americana. Mas se acalme leitor, sei que agora fiz uma ponte abrupta e peço que não abandone esse texto até acompanhar o meu raciocínio.

Não há causas diretas entre programas de televisão e comportamentos dos seus telespectadores. O que há são reforços de valores e modos de pensar que também estão por trás de ações ou não-ações bárbaras. Vejam bem, esse burro de carga é fonte de afeto e união apenas internamente à sua família. Vista de fora, num mundo onde cada vez mais o que vale é a aparência e o consumo, ela não tem prestígio social nenhum. Essa é a sina das D. Marias.

O quadro "Um mundo sem mulheres" coloca no registro do exótico, homens que cuidam da casa e dos filhos, instituindo como normalidade essa mulher burro de carga. Ora, mas que normalidade é essa em que os homens são coitadinhos por fazerem aquilo mesmo pelo que são IGUALMENTE responsáveis, casa e filhos. Um homem que cuida dos filhos é um herói, mas uma mulher que o faz segue a sua 'natureza'. Por consequência,  um homem que não assume suas responsabilidades segue seus instintos e uma mulher que não o faz é uma espécie de monstro, anomalia que deve ser enxovalhada.

Caberia então se perguntar se, num mundo onde é normal a mulher estar reduzida, ainda, à maternidade e ao espaço privado da casa,  porque quando ela sai da casa e vai à rua a integridade do seu corpo deva ser prioridade? Ao andar na rua, sozinha, uma mulher é sempre uma vadia em potencial. Afinal, se no mundo sem mulheres desse programa, as mulheres não existem no espaço público, entao elas tendem ser o que qualquer  maníaco imbecil quiser. Nesse sentido, realmente, ao que parece, a integridade do corpo da mulher só merece respeito quando ela tem grana, fama ou algo que equivalha, como no caso de turistas. Ela não é fundamental porque o assunto "a mulher no espaço público" não só não o é importante, como quadros como esse dizem não existir.

OBS: Textos bem legais sobre o assunto, ainda que não concorde totalmente, são o de Marcelo Hailer :http://revistaforum.com.br/blog/2013/04/o-mundo-sem-mulheres-e-o-macho-alfa-editado/; Daniel Fonsêca http://www.direitoacomunicacao.org.br/content.php?option=com_content&task=view&id=9672; Iara Sindrominha http://sindromemm.blogspot.com.br/2013/04/um-mundo-sem-fantastico-sao-mulheres-ou.html; Danie Karam http://pipocapimentaepoesia.com.br/2013/04/01/mundo-sem-mulheres-sem-sentido-e-sem-nocao/;

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