Aqui não vamos pedir licença, nem nos constranger a precipitar juízos quando eles ainda estão suspensos. O que penso eu do funk? Não sei. Teria que investigar o gênero e ouvir outros grupos que não só o da Valesca. Se a ideia é não topar um mero 'politicamente correto', então vamos admitir que o gênero musical tem autonomia, até para que possamos divergir com eficácia persuasiva do conteúdo que queremos discutir. A repetição de palavrões e os milhares de nomes dados aos nossos órgãos reprodutivos, por exemplo, não são motivados por uma gente bárbara que colocam suas crianças para dançar fazendo posições sexuais, estimulando a pedofilia. Aliás, é bom lembrar que uma criança que dança assim, caso um pedófilo a toque, nem ela nem a sua mãe devem ser os culpados disso, assim como no caso do estupro não importa a roupa que a mulher usava. Também recomendo o filme "Festa de família", sobre uma família de elite dinamarquesa cujo o pai estuprava os filhos desde de pequenos ao som, eu imagino, de Mozart. Deste modo, essa presença características da representão do ato e dos órgãos sexuias parecem fazer parte de um gênero musical cuja história praticamente se desconhece e que se deu em condições autônomas de produção, circulação e recepção. Como diz Valesca em entrevista, o primeiro lugar em que se toca um pancadão é no baile funk e, se fizer sucesso ali, vai para a rádio ou para a televisão. Inclusive, parece que boa parte dos proibidões já são feito de modo a tornarem a "versão light" que vai para fora da 'comunidade', como a carioca chama o seu filçao de mercado.
Bom, dado que pouco se sabe, em geral, desse gênero específico de música que é o funk. Limitamos então nosso comentário ao conteúdo e aos constrangimentos que as declarações e letras do grupo de Valesca têm colocado para um tipo de feminismo que, pelo que vi, acredito estar bem representado no artigo de Lola Aronovich. Apesar de finalizá-lo dizendo que apóia o modo como Vaslesca afirma a liberdade sexual da mulher, ao longo deste a autora condena suas letras:
E isso de se interessar por homem casado só reforça o clichê de que mulheres não podem ser amigas porque estarão sempre competindo entre si pela aprovação masculina.[...]
Tampouco acho empoderador ter que colocar silicone, posar nua pra revista, ou fazer qualquer outra coisa que a sociedade já espera de uma mulher. Não estou dizendo que acho necessariamente errado, apenas que não é revolucionário.
Não gosto do termo dar, porque ele sugere passividade. Que tal transar, que é um termo neutro e unissex? O homem come, a mulher dá. Argh. Em inglês não existe isso não. Também odeio termos como cachorra e piranha, que aparentemente são encorajados pelo funk (entre outros estilos musicais).
Não gosto do termo dar, porque ele sugere passividade. Que tal transar, que é um termo neutro e unissex? O homem come, a mulher dá. Argh. Em inglês não existe isso não. Também odeio termos como cachorra e piranha, que aparentemente são encorajados pelo funk (entre outros estilos musicais).
(de Lola Aronovich, em http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2012/06/as-declaracoes-feministas-de-valesca.html)
Ora, ora, ora.... ainda é muito forte o que vou chamar aqui de certo feminismo se apegam ao que considero clichês a tanto tempo que realmente é de se perguntar como aguentam se interessar por uma pauta que é sempre a mesma!!! Por onde começar? Vamos ver... Entremos pela brecha que acreditamos existir na frase destacada acima. Desconfortável com o seu papel de "juiz de funk" (não é errado) e preocupada em não ser confundida como uma simpatizante (não é revolucionário), Lola chega a essa interessante e ponderada formulação sobre o problema. Contudo, se não é 'errado', porque condenar o adultério, o silicone ou determinados palavrões que lhes são particularmente estranhos? Além disso, qual o parâmetro do que é revolucionário? Não me parece nada revolucionário estabelecer parâmetros vazios e inatingíveis para artistas sem nem ao menos conhecer o gênero musical com que trabalham. É preciso deixar claro se se quer que as pessoas parem de ouvir funk, ouçam só um tipo de funk ou, como é o caso do que defendemos aqui por ser democrático, que elas ouçam funk com a mente mais aberta, tanto para as críticas, como para os elogios.
Bom, com essa introdução acho que nos livramos de uma corrente de opiniões marcada pelo preconceito com o gênero musical funk, ao elitismo que marca e dispensabilidade em conhecê-lo para julgar seus casos e, principalmente, ao moralismo que afirma um modelo de feminilidade universitário. Silicone, palavrão, adultério etc. todos esses são gestos da vida privada que, por mais que tenham sentido coletivo, como no caso do padrão de beleza, relativo ao silicone, também têm um sentido pessoal para cada um, que pode ser repressivo ou libertador, sem podermos julgar a priori e deduzir daí todos os posicionamentos políticos e opiniões de quem faz essa opção. Querendo questionar o padrão de beleza, certo feminismo opera outra redução da mulher, no caso, de suas posições políticas às suas opções em relação ao seu corpo. Nesse sentido, ele se ressente de uma cultura intelectual mais geral de caráter personalista, onde o mais importante é taxar as pessoas disso ou daquilo (daí a relevância desse problema em se definir ou não feminista)
Valesca dá um nó nisso tudo, ela é mãe de três filhos, foi frentista, fala que rejeita pau mole, que não apanha de homem, que é legal estar solteira, que é legar depenar financeiramente o homem, que é contra o aborto. Ora, como podemos taxar de alguma coisa esse amálgama de contradições? Talvez fosse legal justamente pensar essas contradições como tais e separar 'o joio do trigo', levando à serio a mensagem da funkeira que concordamos e outras que discordamos veementemente. Não porque acreditamos estimular as criancinhas para isso ou para aquilo, mas porque afirmam valores opressivos presentes nas canções no discurso de todas as classes sociais, inclusive em objetos classificados como de alta cultura.
Vamos a parte II desse artigo.

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