terça-feira, 30 de abril de 2013

Limpando o terreno... (Valesca popozuda - parte I)

Após investigar outros blogs que também falam de questões de gênero, vi que um assunto em voga são as recentes declarações da líder do grupo de funk, "Gaiola das popozudas", Valesca. A maioria dos artigos que querem pensar em um registro menos preconceituoso a fala e as letras de Valesca, começam admitindo que não entendem de música, o que parece ser um pedido de licença para falar do assunto. Como se não pudéssemos falar de funk seriamente sem antes deixar claro que a música é ruim. Exceção feita para o Homem Maravilha, que deixou bem claro que quando ouve em festa rebola até o chão (rs, rs, rs).

Aqui não vamos pedir licença, nem nos constranger a precipitar juízos quando eles ainda estão suspensos. O que penso eu do funk? Não sei. Teria que investigar o gênero e ouvir outros grupos que não só o da Valesca. Se a ideia é não topar um mero 'politicamente correto', então vamos admitir que o gênero musical tem autonomia, até para que possamos divergir com eficácia persuasiva do conteúdo que queremos discutir. A repetição de palavrões e os milhares de nomes dados aos nossos órgãos reprodutivos, por exemplo, não são motivados por uma gente bárbara que colocam suas crianças para dançar fazendo posições sexuais, estimulando a pedofilia. Aliás, é bom lembrar que uma criança que dança assim, caso um pedófilo a toque, nem ela nem a sua mãe devem ser os culpados disso, assim como no caso do estupro não importa a roupa que a mulher usava. Também recomendo o filme "Festa de família", sobre uma família de elite dinamarquesa cujo o pai estuprava os filhos desde de pequenos ao som, eu imagino, de Mozart. Deste modo, essa presença características da representão do ato e dos órgãos sexuias parecem fazer parte de um gênero musical cuja história praticamente se desconhece e que se deu em condições autônomas de produção, circulação e recepção. Como diz Valesca em entrevista, o primeiro lugar em que se toca um pancadão é no baile funk e, se fizer sucesso ali, vai para a rádio ou para a televisão. Inclusive, parece que boa parte dos proibidões já são feito de modo a tornarem a "versão light" que vai para fora da 'comunidade', como a carioca chama o seu filçao de mercado.

Bom, dado que pouco se sabe, em geral, desse gênero específico de música que é o funk. Limitamos então nosso comentário ao conteúdo e aos constrangimentos que as declarações e letras do grupo de Valesca têm colocado para um tipo de feminismo que, pelo que vi, acredito estar bem representado no artigo de Lola Aronovich. Apesar de finalizá-lo dizendo que apóia o modo como Vaslesca afirma a liberdade sexual da mulher, ao longo deste a autora condena suas letras:

E isso de se interessar por homem casado só reforça o clichê de que mulheres não podem ser amigas porque estarão sempre competindo entre si pela aprovação masculina.[...]
Tampouco acho empoderador ter que colocar silicone, posar nua pra revista, ou fazer qualquer outra coisa que a sociedade já espera de uma mulher. Não estou dizendo que acho necessariamente errado, apenas que não é revolucionário.
Não gosto do termo dar, porque ele sugere passividade. Que tal transar, que é um termo neutro e unissex? O homem come, a mulher dá. Argh. Em inglês não existe isso não. Também odeio termos como cachorra e piranha, que aparentemente são encorajados pelo funk (entre outros estilos musicais). 
(de Lola Aronovich, em http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2012/06/as-declaracoes-feministas-de-valesca.html)
 
Ora, ora, ora.... ainda é muito forte o que vou chamar aqui de certo feminismo se apegam ao que considero clichês a tanto tempo que realmente é de se perguntar como aguentam se interessar por uma pauta que é sempre a mesma!!! Por onde começar? Vamos ver... Entremos pela brecha que acreditamos existir na frase destacada acima. Desconfortável com o seu papel de "juiz de funk" (não é errado) e preocupada em não ser confundida como uma simpatizante (não é revolucionário), Lola chega a essa interessante e ponderada formulação sobre o problema. Contudo, se não é 'errado', porque condenar o adultério, o silicone ou determinados palavrões que lhes são particularmente estranhos? Além disso, qual o parâmetro do que é revolucionário? Não me parece nada revolucionário estabelecer parâmetros vazios e inatingíveis para artistas sem nem ao menos conhecer o gênero musical com que trabalham. É preciso deixar claro se se quer que as pessoas parem de ouvir funk, ouçam só um tipo de funk ou, como é o caso do que defendemos aqui por ser democrático, que elas ouçam funk com a mente mais aberta, tanto para as críticas, como para os elogios.

Bom, com essa introdução acho que nos livramos de uma corrente de opiniões marcada pelo preconceito com o gênero musical funk, ao elitismo que marca e dispensabilidade em conhecê-lo para julgar seus casos e, principalmente, ao moralismo que afirma um modelo de feminilidade universitário. Silicone, palavrão, adultério etc. todos esses são gestos da vida privada que, por mais que tenham sentido coletivo, como no caso do padrão de beleza, relativo ao silicone, também têm um sentido pessoal para cada um, que pode ser repressivo ou libertador, sem podermos julgar a priori e deduzir daí todos os posicionamentos políticos e opiniões de quem faz essa opção. Querendo questionar o padrão de beleza, certo feminismo opera outra redução da mulher, no caso, de suas posições políticas às suas opções em relação ao seu corpo. Nesse sentido, ele se ressente de uma cultura intelectual mais geral de caráter personalista, onde o mais importante é taxar as pessoas disso ou daquilo (daí a relevância desse problema em se definir ou não feminista)

Valesca dá um nó nisso tudo, ela é mãe de três filhos, foi frentista, fala que rejeita pau mole, que não apanha de homem, que é legal estar solteira, que é legar depenar financeiramente o homem, que é contra o aborto. Ora, como podemos taxar de alguma coisa esse amálgama de contradições? Talvez fosse legal justamente pensar essas contradições como tais e separar 'o joio do trigo', levando à serio a mensagem da funkeira que concordamos e outras que discordamos veementemente. Não porque acreditamos estimular as criancinhas para isso ou para aquilo, mas porque afirmam valores opressivos presentes nas canções no discurso de todas as classes sociais, inclusive em objetos classificados como de alta cultura.

Vamos a parte II desse artigo.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Um mundo sem talheres?

Gildásio Jardim
"Um mundo sem mulheres", quadro do programa Fantástico, é uma afronta direta ao que considero um feminismo já senso comum. Como disse o apresentador do quadro, no último programa, se nas semanas anteriores a falta das esposas se fez sentir mais nas tarefas domésticas, neste episódio a falta começa a ser emocional e as crianças passam a brigar entre si e com os pais. Um burro de carga conciliador, fonte de todos os afetos familiares e harmonizador, parece ser este o modo de compreensão de uma mulher que protagoniza as atividades da casa e o cuidado com os filhos.

Pequipariu!!! Jura?! Isso é possível? Quantos pontos de exclamação serão necessários para fazer combater uma cultura em que, até hoje, tem dificuldades para achar importante iniciar uma investigação de estupro, como demonstrou o caso recente da turista americana. Mas se acalme leitor, sei que agora fiz uma ponte abrupta e peço que não abandone esse texto até acompanhar o meu raciocínio.

Não há causas diretas entre programas de televisão e comportamentos dos seus telespectadores. O que há são reforços de valores e modos de pensar que também estão por trás de ações ou não-ações bárbaras. Vejam bem, esse burro de carga é fonte de afeto e união apenas internamente à sua família. Vista de fora, num mundo onde cada vez mais o que vale é a aparência e o consumo, ela não tem prestígio social nenhum. Essa é a sina das D. Marias.

O quadro "Um mundo sem mulheres" coloca no registro do exótico, homens que cuidam da casa e dos filhos, instituindo como normalidade essa mulher burro de carga. Ora, mas que normalidade é essa em que os homens são coitadinhos por fazerem aquilo mesmo pelo que são IGUALMENTE responsáveis, casa e filhos. Um homem que cuida dos filhos é um herói, mas uma mulher que o faz segue a sua 'natureza'. Por consequência,  um homem que não assume suas responsabilidades segue seus instintos e uma mulher que não o faz é uma espécie de monstro, anomalia que deve ser enxovalhada.

Caberia então se perguntar se, num mundo onde é normal a mulher estar reduzida, ainda, à maternidade e ao espaço privado da casa,  porque quando ela sai da casa e vai à rua a integridade do seu corpo deva ser prioridade? Ao andar na rua, sozinha, uma mulher é sempre uma vadia em potencial. Afinal, se no mundo sem mulheres desse programa, as mulheres não existem no espaço público, entao elas tendem ser o que qualquer  maníaco imbecil quiser. Nesse sentido, realmente, ao que parece, a integridade do corpo da mulher só merece respeito quando ela tem grana, fama ou algo que equivalha, como no caso de turistas. Ela não é fundamental porque o assunto "a mulher no espaço público" não só não o é importante, como quadros como esse dizem não existir.

OBS: Textos bem legais sobre o assunto, ainda que não concorde totalmente, são o de Marcelo Hailer :http://revistaforum.com.br/blog/2013/04/o-mundo-sem-mulheres-e-o-macho-alfa-editado/; Daniel Fonsêca http://www.direitoacomunicacao.org.br/content.php?option=com_content&task=view&id=9672; Iara Sindrominha http://sindromemm.blogspot.com.br/2013/04/um-mundo-sem-fantastico-sao-mulheres-ou.html; Danie Karam http://pipocapimentaepoesia.com.br/2013/04/01/mundo-sem-mulheres-sem-sentido-e-sem-nocao/;